LINHAS DE VIVÊNCIA – Por Sanclair Lemos (Facilitador / Didata de Biodanza)

RESUMO
O presente artigo nos mostra como a Biodanza é um caminho vivencial para o desenvolvimento humano. Desde que o ser humano nasce tem todo o potencial genético único qual sua expressão diferenciada se permitida através do desenvolvimento das linhas de vivência.

A linha de vitalidade relacionada com o ímpeto vital, que têm como base o instinto de sobrevivência. E permite nos colocarmos no mundo como seres humanos responsáveis por nosso momento e por nossas ações.
A linha da sexualidade se reflete na capacidade de sentir desejo e expressar o prazer através dos sentidos, a sensualidade e erotismo que envolvem a chave do contato e a carícia.
Na linha de criatividade surge a nossa capacidade inata de exploração de procurarmos estar no movimento de vida criando-nos a nós mesmos, auto-poyeses.
Na linha da afetividade é a força ou energia que nos conecta e vincula com todos os seres humanos. A emoção básica dessa rede de vínculos é o autor.
A linha da transcendência que é capacidade sentir-se parte de um todo maior, uma unidade psicossomática que tem a capacidade de incluir em si unidades maiores e dentro dessa diversidade, permanecem como uma unidade.
Outro ponto são os ecofatores – estímulos externos que podem induzir ou inibir e desorganizam a expressão do potencial. Estas linhas de vivência se movimentam em uma pulsão polarizada de expansão e recolhimento que o ser se expresse. A expressão e integração das linhas, no movimento integrado de expansão e recolhimento, permitem ter acesso ao êxtase, a vivência de sentir a vida por inteiro desdobrando-se no inefável eterno momento presente.

PALAVRAS-CHAVE
Linhas de vivência; vitalidade, se-xualidade, criatividade, afetividade e transcendência; ecofatores, pulsação da identidade êxtases de vida.

PALAVRAS INICIAIS
Somos os herdeiros da história evolutiva da humanidade e do desenvolvimento da nossa espécie (desenvolvimentos físico, motor, psicológico e social) além dos padrões filogenéticos de comportamento. No ato da fecundação recebemos, como um presente, todo o potencial de desenvolvimento da humanidade. Como uma dádiva, surgimos na existência a partir mesmo de todo o potencial e todas as conquistas da humanidade.

Esse potencial, impresso em nossas células, em nossos genes, começa a se expressar na realidade (vivida) a partir do nascimento (e talvez antes). Cada um traz em si uma nuance, uma combinação única e particular desse potencial humano, cada ser humano é expressão diferenciada e única dessa totalidade a qual podemos chamar de potencial humano ou humanidade.

Essa humanidade se expressa então, na realidade particular de cada um através do que R. Toro chamou de linhas de vivência.

A primeira linha de vivência é a VITALIDADE e está relacionada com o ímpeto vital; desenvolve-se a partir da organização biológica e do instinto de sobrevivência. O desenvolvimento dessa linha de vivência relaciona-se diretamente com as primeiras experiências da criança no que diz respeito à sua expressão através das experiências de movimento. O movimento é a expressão básica da vida e surge inicialmente em função da necessidade de sobrevivência do organismo, brota do instinto de sobrevivência, que leva o organismo a mover-se no sentido de permanecer vivo. A criança, se deixada à vontade em um ambiente nutritivo e estimulante, buscará a satisfação e a expressão de si mesma através do movimento.

A Vitalidade relaciona-se à alimentação e ao desenvolvimento da seletividade alimentar. Os organismos saudáveis alimentam-se daquilo que nutre e cura, alimentos ricos em sabor e nutrição, e ingerem a quantidade necessária e suficiente de alimentos saudáveis e nutritivos.

Quando integrado a partir do movimento vital e da alimentação, organismo pouco ou nada necessitará tomar de remédios. A alimentação adequada e a alternância entre trabalho e repouso são as expressões básicas de vitalidade do organismo humano, ou seja, da pessoa. Com a vitalidade equilibrada, o ser humano como quando tem fome, bebe (água) quando tem sede, dorme quando tem sono e busca a satisfação dessas necessidades naturais de maneira instintiva, natural. A cultura, no entanto, promove regularmente alterações nesse movimento equilibrado. À criança, por exemplo, é ensinada que deve comer o que não gosta, em horas determinadas e não quando sente fome. Aos poucos, ela já não sabe mais o que quer, vai perdendo a organização e a capacidade seletiva, sente dificuldade em realizar uma escolha ou em tomar uma decisão. Lembremo-nos que essa criança pode ser cada um e todos nós. Vitalidade é a capacidade de colocar-se no mundo como ser humano autônomo, responsável por seu movimento e por suas ações.

A segunda linha de vivência que se desenvolve do potencial humano é a SEXUALIDADE, que se refere à capacidade de sentir desejo, de expressar o prazer (dos sentidos), a sensualidade e o erotismo. Essa linha de vivência evolui a partir do contato e das carícias que a criança recebe desde o nascimento.

Estímulos prazerosos aos sentidos (sensuais) são também fatores significativos para o desenvolvimento da linha de vivência da sexualidade – comer uma fruta, tomar chuva, mergulhar nas águas do mar, andar descalço, rolar na terra, caminhar em meio a flores…

Essas sensações prazerosas, o contato corporal sensual com a mãe durante o ato de mamar ou durante o banho, permitem que a criança se perceba como um organismo inteiro, completo, capaz de experimentar sensações que significam a percepção de si e do mundo como fonte de prazer (e organização).

Muitas mães e pais sentem medo e desconforto frente à sensualidade e ao erotismo dos filhos. Afastando-se e negando e vivência prazerosa e sensual, esses pais e mães negam à criança o acesso (a vivência) à percepção e compreensão de si mesmo como um ser corpóreo, sensual, e erótico. A criança vai, então, descobrindo a sexualidade nas ruas de maneira inadequada, ou na escola de maneira mecânica e racional.

A carícia tem a capacidade de regular o sistema neurovegetativo e de organizar o funcionamento dos órgãos. A carícia e o afeto são reguladores do sistema vivente, seja na aprendizagem escolar ou do movimento, além de promoverem a integração das demais linhas de vivência.

A energia da vida se expressa também, nos diz Rolando Toro, como uma busca pelo novo, como CRIATIVIDADE, que é a linha de vivência que surge da capacidade inata de exploração que tem á criança. O ato de explorar está intimamente ligado ao ato de movimentar-se, mover-se na realidade vivida. A criatividade conecta-se assim, de maneira indissociável com a vitalidade.
Criatividade é o ato de criar a si próprio, enquanto ser que vive e existe no mundo, a cada momento mover-se no novo, modificando-se no fluxo do mundo que se modifica constantemente. Como um rio, o movimento da vida (cotidiana mesmo) renova-se eternamente. Nosso existir se dá nesse fluxo de transformação, de auto-criação e auto organização.

As formas que percebemos, inclusive a nossa própria forma corporal, não são estáticas, mas o estado atual de um fluxo de energia e movimento. Nós somos em expressão e movimento; a criatividade é, também, nossa natureza. Então, na medida em que nos identificamos com certa idéia, certa forma de ser, diminuímos a possibilidade de ser fluídos na renovada expressão daquilo que se é. A criatividade pode expressar-se de muitas maneiras – a poesia, o trabalho científico, a música, o canto, a dança…

É certo que nem todas as pessoas cantam, tocam um instrumento ou pintam. Estariam essas fadadas a não criatividade? A essência da criatividade é criar-se a si mesmo, auto-poyese de H. Maturana e F. Varela. A expressão desse “ser-criativo-por-natureza” vai depender, em larga escala, do meio e do ambiente em que cada um vive. Se o meio físico e o ambiente afetivo – emocional permitem, a criança poderá “aprender” a ser criativa através de estímulos para a exploração e para a expressão, seja pela voz, pela palavra, pelo desenho, pela escrita, por um instrumento musical, ou pelo próprio movimento corporal.

A criatividade se desenvolve, naquele que é capaz de sentir e expressar o que sente, pois no ato de expressar-se a pessoa se modifica modificando e criando.
O instinto de exploração – de busca de novos estímulos, novas sensações e vivências – nos leva a sentir e, de alguma maneira possível, expressar a maravilha que sentimos frente ao universo. Se somos capazes de sentir-expressar (sentir evoca movimento, que já é em si, expressão) de maneira presente, já estamos nos modificando, nos movendo e criando com o mundo.

O potencial pleno da vida, inscrito no potencial genético do ser humano, se expressa também como AFETIVIDADE que é a força ou energia que nos conecta e vincula com todos os seres. A essa emoção de conexão e vinculação com os outros membros da espécie ou com a totalidade da vida chamamos amor. O amor nasce em situações de harmonia, segurança, confiança e respeito. Considerar o outro como um ser íntegro, respeitá-lo pelo que é mesmo em sua singularidade e em sua diferença. É verdade que conviver com alguma diferença é difícil, o desconforto com a singularidade do outro revela nossa limitação e nosso preconceito. Aprendemos que o “diferente” significa “errado” e conseqüentemente “mau”. Do “mau” nos defendemos, pois a diferença que não compreendemos nos causa medo. Para mantermos nossa “segurança” agredimos, então, a fonte do desconforto, o diferente, aquele que nos revela nossa limitação e a quem tememos, simplesmente por não ser como nós próprios (em aparência, idéias, maneiras, raça, etc).

Se não somos capazes de conviver, ou nos vincular em meio às diferenças, então não somos capazes de amar. O amor pelo que é igual a nós próprios é o amor por nós próprios. O amor como sentimento indiferenciado de vinculação fortalece nossa própria singularidade de seres diferenciados e únicos dentro da unidade do todo e do semelhante.

Aqueles que trabalham com crianças devem se atentar para o fato de que o fundamental para a criação de uma relação pedagógica, uma verdadeira relação de ensino-aprendizagem, é o amor. O afeto, a relação afetiva (respeito e contato) é a aprendizagem a todos os envolvidos na relação. Quem sabe, a única maneira de se ensinar algo (para crianças ou adultos) seja estabelecer uma relação de segurança, de confiança e de amizade com o aluno em um ambiente estimulante, lúdico e criativo.

A partir da sensação básica de confiança, pode se desenvolver a amizade e o afeto verdadeiro, mediador das relações de ensino e aprendizagem a que chamamos relação pedagógica. Surge aí também, dessa sensação básica de segurança (afetiva) e confiança, várias sensações e emoções relacionadas à percepção do outro como um ser pleno, e à nutrição e estímulo desse outro. A essas sensações damos o nome de amor – a possibilidade de conexão nutritiva entre indivíduos. Mas além de existir entre indivíduos da mesma espécie, o amor é a força que vincula todos os “portadores de vida”. Todos os seres vivos merecem a mesma consideração, respeito e amor. Pode parecer difícil considerar os seres vivos sem a lente deformante da ideologia ou da hierarquia, mas como nos ensina Rolando Toro: “e necessário uma cons – consciência ampla e amorosa para perceber que somos primos das rãs”. H. Maturana – neurofisiólogo – estudioso da estrutura e funcionamento dos organismos vivos, diz que a consciência de uma ameba é da mesma qualidade da consciência de um homem. Obviamente, se expressa a partir da estrutura e da organização de uma ameba. Sua proposta é: a vida se expressa e percebe a realidade em que vive e existe, de acordo com a estrutura e organização dos organismos que expressam essa vida. São várias as maneiras de perceber e expressar a vida – a ameba, o gato, o cavalo, a árvore, o homem.

Os organismos são diferentes em estrutura e organização, mas essencialmente a vida que os anima é uma só.

Finalmente, Rolando Toro propõe que do potencial humano que brota do organismo biológico surge a capacidade de sentir TRANSCENDÊNCIA, que é a capacidade de sentir-se parte de um todo maior, parte de unidades que se expandem e se organizam em sistemas cada vez mais amplos. Sentir-se como uma unidade indivisível, não uma mente que anima o corpo, mas uma unidade psicossomática que tem a capacidade de incluir em si unidades maiores e, dentro dessa diversidade, permanecer como uma unidade.

“Desiderata” é um poema encontrado em uma antiga catedral em Baltimore – USA. Um de seus versos diz que somos “filhos das estrelas e temos o direito de estar aqui”. Sabemos que os átomos que formam as estrelas, as galáxias ou as folhas das relvas são os mesmos átomos que compõem o nosso organismo. Quando o organismo se decompõe ou se transforma, esses mesmos átomos irão se reorganizar de outra maneira e assim pela eternidade verdadeiramente somos filhos da terra, filhos do universo, filhos das estrelas.

Essa é a vivência de transcendência. É necessário ampliar a percepção, a compreensão das coisas e nossa penetração vivencial para percebemos que a vida é mais ampla, complexa e maravilhosa do que estarmos acostumados e talvez preparados para perceber e sentir.

Os sete poderes transformadores da Biodanza

Falar de Biodanza não é tão poderoso quanto vivenciar a Biodanza. Pensar sobre uma teoria e compreendê-la é uma coisa, unir-se a ela através da prática e do exercício é outra.

O objetivo desse artigo é falar um pouco de cada poder utilizado na Biodanza e com sua descrição, poderemos ter uma idéia de como este sistema funciona promovendo mudanças fisiológicas, emocionais e existenciais tão profundas.

O primeiro poder: O Poder da música

“A música desperta sensações. Ela me liberta de mim mesmo, torna-me autoconsciente, com se eu pudesse verme e sentir-me de longe. Por isso a música me fortalece: depois de cada noite musical, vem uma manhã plena de idéias claras e originais”. NIETZCHE

O poder transformador da música vem de muito tempo atrás, mitologicamente podemos falar de Orfeu: Ele se destaca como o músico por excelência que, com a sua lira ou cítara, apaziguava os elementos desencadeados pela natureza, enfeitiçava as plantas, os animais, os homens e até os Deuses.

Don Campbell, em seu livro “Efeito Mozart”, descreve vários estudos feitos pelo médico otorrinolaringologista francês Alfred Tomatis, que consagrou sua atividade ao estudo dos problemas de audição e linguagem e relacionou as funções da audição ao equilíbrio psicofísico do indivíduo. Suas pesquisas estabeleceram os poderes curativos e criativos do som e da música, particularmente do Efeito Mozart.

“Ouso considerar Mozart único entre os maiores. É como se fosse mais que um musicista. É a própria música, a encarnação da harmonia”. Tomatis

Por que Mozart? Para Tomatis esta escolha não se fundamentou em seu gosto pessoal, mas nas respostas neurofisiológicas e psicológicas que seus pacientes apresentaram.

“Mozart restabelece em nós o equilíbrio inicial que estruturou nosso corpo vivente. Graças a ele a reativação dos potenciais vibratórios provoca uma nova partida, um relançamento. Mozart vai além dos efeitos próprios da música, pois sua música atinge os estratos mais arcaicos do seu ser e permite reencontrar e reativar o tempo em que os diversos tipos de condicionamento não haviam ainda deixado sua marca na psique.”

Rolando Toro, criador do Sistema Biodanza, sabendo que a música é uma linguagem universal, acessível a todos e que sua influência vai diretamente à emoção, ao tálamo 1 – sem passar pelos filtros analíticos do pensamento – cria 1 Região do cérebro onde se recebem os sinais sensoriais correspondentes às sensações e emoções. Uma metodologia, onde a música é deflagradora das emoções, vivências e sentimentos.

Em Biodanza não usamos somente Mozart, temos o Efeito Samba, Efeito Debussy, Efeito Caetano, Maria Creuza, Vivaldi, Bach, Nana, enfim, os efeitos da música orgânica.

Música Orgânica é toda forma de música que contém atributos biológicos: fluidez, harmonia, ritmo, tônus, unidade de sentido. São músicas estruturadas a partir de um núcleo emocional ou de um propósito fortemente expressivo.

O critério de seleção de músicas em Biodanza não é estético, é funcional, músicas que respeitem as pautas fisiológicas básicas (ritmo e freqüência cardiorespiratória), que reforcem os níveis de regulação homeostática (equilíbrio interno). “Boa música produz vida, música ruim produz morte.” DAVID TAME

Sabemos por várias pesquisas que a música penetra nos componentes biológicos e muda as estruturas neurológicas. Nosso prazer de escutar músicas derivaria do prazer primário de escutar as pulsações do cordão umbilical. O feto não reage somente aos movimentos do útero, mas também a sons que vêm de fora, principalmente a voz materna, as mães por instinto costumam cantar para seus bebês. O som nutre o inconsciente.

Howard Gardner afirma que a inteligência musical é a primeira forma de inteligência que se manifesta no recém nascido. O estímulo musical é captado pelo bebê na segunda ou terceira hora de vida. Xamãs, feiticeiros, bruxos, curandeiros, sacerdotes, médicos, enfermeiros, terapeutas da mente e do corpo em várias partes do mundo têm usado a música, através dos tempos, como ferramenta para estabelecer a saúde física, psíquica, mental e espiritual.

O segundo Poder: O Poder da Dança Integradora

“A dança é a prova da verdade.” Nietzche

Não é utopia querer mudar o mundo dançando. A dança no seu sentido original, surge das profundezas do ser humano: é movimento de vida, de intimidade, é impulso de união à espécie.

Quando falamos de movimento, da dança em Biodanza, não falamos de gestos ou deslocamentos mecânicos destituídos de significado. Tocados pela música que nos comove e nos move, fazemos e criamos movimentos sustentados por nosso mundo emocional. Quando dançamos, nos engajamos totalmente: corpo, mente, espírito e coração, buscando a unidade, a integração.

“Movimentar o corpo desde a interioridade pode chegar a ser uma fonte indescritível de prazer e saúde.” Rolando Toro

Muitas pessoas apresentam uma dissociação entre seu movimento corporal e o que sentem. Esses movimentos são controlados pelo córtex cerebral e por isso, vemos pessoas que insistem em falar algo diferente que fala seu corpo. Imaginem uma pessoa que sente uma coisa, pensa outra e realiza uma outra coisa, essa pessoa está dissociada, está dividida em três.

O movimento verdadeiro nasce do nosso peito, do nosso centro afetivo e qualquer movimento que não venha do que sentimos é dissociativo. Em Biodanza contamos com mais de 250 exercícios e danças cuja finalidade é ativar os movimentos humanos em forma harmônica e integradora.

Trabalhamos a integração sensóriomotora, afetivo–motora, ideoafetivomotora, a sensibilidade cenestésica e outros conjuntos de exercícios que estimulam as vivências das 5 linhas: VITALIDADE, SEXUALIDADE, CRIATIVIADE, AFETIVIDADE E TRANSCENDÊNCIA. Falarei dessas linhas no poder da vivência.

Todas essas danças são ecofatores (fatores naturais) de grande poder de deflagração vivencial, se potencializam reciprocamente e seu efeito é a homeostase das funções orgânicas, a regulação do sistema límbicohipotalâmico e a elevação da qualidade de vida no sentido de plenitude e gozo de viver.

Para Nietzche “nós não devemos acreditar em pensamentos que os músculos não saúdem também”.Metamorfoses do “eu” são fenômenos musicais. São ritmos. Para ele, o homem é uma criatura inventora de ritmos”.

Só entendemos as coisas quando as traduzimos em formas e ritmos. Encontrar o ritmo pessoal nas várias situações de vida; é isso que os românticos chamam de “a arte das artes de viver”.

“Que aconteceria se, em vez de apenas construirmos nossa vida, tivéssemos a loucura ou a sabedoria de dançá-la.” Roger Garaudy.

O terceiro oder: O Poder da Vivência

“As grandes decisões da vida humana estão, geralmente, mais relacionadas com os instintos e outros misteriosos fatores inconscientes do que com a vontade consciente e a sensatez bem intencionada”. C.G.Jung

A metodologia da Biodanza orienta para a deflagração de vivências integradoras, capazes de superar as dissociações que induz nossa cultura. A vivência tem um poder de integração em si mesma e não necessita elaboração consciente, é um modo de cognição ao nível inconsciente.

A vivência é diferente da emoção. A emoção é uma resposta a estímulos externos e desaparece quando estes cessam.

A vivência é uma experiência que abarca a existência completa, possui efeitos profundos e duradouros, onde participa o organismo como totalidade e induz o sentimento de estar vivo, transcendendo o ego. É uma experiência no aqui e agora.

Muitos não sentem o corpo como se vivessem numa eterna anestesia corporal. O cérebro precisa de estímulos, o corpo precisa de estímulos e a Biodanza é um grande laboratório de estímulos vitais.

De acordo com Rolando Toro, o potencial humano se expressa por cinco categorias principais, que ele chama de “Linhas de Vivência”. São elas:

VITALIDADE

A vitalidade relaciona-se àquilo que nos impulsiona para a vida, nossa própria energia vital. Está ligado ao movimento, mas ao mesmo tempo, define nossa capacidade de um equilíbrio saudável entre atividade e descanso. A palavra chave é AUTOREGULAÇÃO.

SEXUALIDADE

Esta dimensão corresponde à esfera de nossa intimidade emotiva, a nossa capacidade de sentir prazer em nossos movimentos, com todos os nossos sentidos. Reflete nossa paixão pela vida e por tudo que nos proporciona prazer, como uma recompensa para nossa existência.

CRIATIVIDADE

Resgata nossa capacidade de brincar e de se renovar a cada momento, deixando nosso instinto explorar novos comportamentos, quebrando velhos padrões e ousando experimentar o novo, renovando a vida.

AFETIVIDADE

É a capacidade se vincular, de demonstrar amor, cuidado, solidariedade, generosidade e fraternidade. A ternura, como uma expressão de nossa afetividade, representa o que está pulsando no coração de nossa identidade.

TRANSCENDÊNCIA

É nossa função humana mais sutil e está associada com todas sensações internas de abundância, expansão e união espiritual com todos as formas de vida. Está ligada à capacidade de sentir-se parte da humanidade, da natureza e do Universo.

Para Toro, apesar de termos essas cinco dimensões, elas não se desenvolvem harmoniosamente com todo seu potencial:

· Podemos ter muita vitalidade, mas pouca criatividade.

· Podemos ser peritos no que fazemos, mas nos sentirmos desconectados do Universo.

· Podemos meditar com facilidade, mas termos dificuldade em expressar nosso amor por nosso parceiro ou por outro ser humano.

A proposta da Biodanza é estimular aquilo que nos falta na busca do reequilíbrio. Estes cinco aspectos estão presentes em todos nós, mas são dependentes de um ambiente favorável e nutritivo para serem desenvolvidos e expressados em toda sua plenitude.

A prática regular da Biodanza estimula as linhas pouco desenvolvidas enquanto consolida aquelas já estabelecidas. A integração destas cinco dimensões ou “Linhas de Vivência” é a base da Biodanza.  Na cultura atual desvalorizamos ao infinito tudo que é corporal. A vivência integra corpo e alma. O corpo não é o templo da alma, o corpo é a alma.

O despertar de vivências que nos permite ser nós mesmos constitui uma nova epistemologia, uma nova maneira de viver. As vivências profundas que comprometem a unidade de nosso psiquismo são as forças originárias de vida.

O quarto Poder: O Poder da Carícia

”Eu sei que tocar foi, ainda é e sempre será a verdadeira revolução.” Nikki Giovanni

Biodanza é a poética do encontro humano. A conexão com as pessoas é essencial em todo ato de reabilitação ou de cura, não existe crescimento solitário, o ser humano é um ser relacional. Somos seres em relação, existir é em si, um modo de relacionar-se.

E relação é reciprocidade. O contato com outras pessoas é o que permite o crescimento. O contato mecânico não é curativo e deve alcançar a categoria de carícia, dentro de um contexto afetivo, em um processo progressivo de empatia. A pessoa aprende a amar não com instruções, mas sendo amada. A carícia é uma conexão movida por uma força afetiva sincera.

Sobre os efeitos terapêuticos e pedagógicos da carícia, atualmente existem múltiplas investigações.

Prescott crê que a privação do toque, do contato e dos movimentos corporais é a causa básica de numerosos distúrbios emocionais que incluem comportamentos depressivos e autistas, hiperatividade, perversões sexuais, abuso de drogas, violência e agressões. Somos incapazes de viver sem contato físico, sem ele adquirimos uma espécie de escorbuto emocional, embora o chamemos por nomes diversos: depressão, estresse, ansiedade, agressividade e crise de meia idade e o tratemos com drogas que não funcionam. Nesse caso a “vitamina C” da carícia está indicada.

Em Biodanza a verdadeira revolução é que todos tenham acesso às carícias: os bebês, as crianças, os adultos e os idosos. A nossa civilização produziu uma raça de intocáveis. Pessoas solitárias e temerosas de contato e intimidade.

O Quinto Poder: O Poder do Transe

“Quando nos abandonamos e soltamos a mente, entramos no corpo; quando abandonamos nosso corpo entramos no coração; e quando nos deixamos levar pelo coração, amamos, e quando amamos entramos no reino da alma.” Sergio Rivera

A palavra transe deriva do latim transire e significa transitar, transportar-se, passar de um estado a outro. O transe é um estado alterado de consciência, que implica na diminuição do ego e regressão ao primordial, ao original, em certos modos a etapas peri natais.

Entrar em transe significa acionar um mecanismo psicofisiológico por meio do qual a pessoa entra num estado de extrema receptividade e se abandona às forças internas e externas, com perda parcial ou total da consciência de si.

O transe em Biodanza induz à regressão, a reparentalização e a renovação celular. No estado de regressão se reeditam as condições do início do desenvolvimento humano. O metabolismo está mais intenso e as percepções mais despertas. Por esta razão falamos em renovação biológica, em rejuvenescimento.

Muitos adultos levam dentro de si uma criança ferida, uma criança abandonada, sem amor. A reparentalização, que quer dizer, nascer de novo, dentro de um contexto de amor e cuidado, permite a cura dessa criança ferida em cerimônias de transe e renascimento.

Existem vários tipos de transe. Em Biodanza trabalhamos os transes integradores – que tem efeitos reparadores –, o transe que leva ao êxtase, ao sonho, ao efeito de profunda harmonia; a percepção corporal é difusa e a prepotência egóica desaparece.

Ao sair do estado de transe se observa, freqüentemente, um aumento da percepção e um estado de expansão de consciência.

Sexto Poder: O Poder da Expansão da Consciência

“Sem cérebro não há consciência, mas, talvez sem corpo também não.” Antônio Damásio

A expansão de consciência é um estado de percepção ampliada que se caracteriza por restabelecer o vínculo primordial com o universo. Seu efeito subjetivo é um sentimento intenso de unidade ontocosmológica e uma alegria transcendente.

Em Biodanza induzimos estados de expansão de consciência, mediante músicas, danças e cerimônias de encontro. Não utilizamos drogas. Preferimos ativar os mecanismos dos neurotransmissores que existem normalmente no organismo e que cumprem os mesmos efeitos das drogas enteógenas.

Albert Hofmann, químico suíço, criador do LSD25, criou o conceito de Experiência Enteógena, como “o despertar do divino no homem”. Ele propôs uma nova forma de educação da percepção e da capacidade de empatia mediante a experiência enteógena, num contexto de intimidade com a vida.

Depois de viver uma experiência suprema, se descobre um novo sentido de vida, uma elevação do vínculo consigo, com o outro e com a natureza. Ter acesso a essa experiência, requer uma preparação prévia e um nível elevado de integração e maturidade.

Na Biodanza podemos desfrutar de vivências que liberam nossas drogas endógenas,isto é, drogas naturais produzidas pelo nosso organismo, nos levando a estados alterados de percepção.

Segundo Aldous Huxley, a percepção da realidade está normalmente diminuída pela forte inibição cortical. Quer dizer, que a pessoa pensa, em lugar de perceber, as formas, as cores, os aromas, os sabores…

O Sétimo Poder: O Poder do Grupo

“O grupo de Biodanza é um biogerador, um centro gerador de vida.” Rolando Toro

O grupo em Biodanza é uma matriz de renascimento na qual cada participante encontra continente afetivo e permissão para expressão da sua identidade.

Biodanza não é um sistema individualista, nem de comunicação verbal. Seu poder está na indução recíproca de vivências entre os participantes do grupo. Constitui um campo de interações muito intenso.

As situações de encontro têm o poder de mudar profundamente atitudes e formas de relacionamento humano. À medida que o grupo se integra vai se criando um sentimento de solidariedade cada vez maior, que é um ambiente propício para o desenvolvimento do encontro humano autêntico. A relação com o outro é simultânea à descoberta da própria identidade. A nossa identidade é permeável a música e à presença do outro.

Durante os exercícios regressivos, onde ocorre diminuição da atividade cortical, o grupo se transforma num útero onde o indivíduo revive as sensações de calor, segurança, harmonia e nutrição. Sem essas qualidades o grupo não pode funcionar como uma matriz de renascimento.

O sistema Biodanza é um processo de crescimento pessoal que requer um compromisso sério e profundo com a própria vontade de evoluir, portanto, precisa se comprometer consigo, com o grupo escolhido e com facilitador que confia.

Considerações Finais:

Sabemos que cada poder tem por si mesmo, um efeito transformador. Existem terapias de contato, outras que produzem expansão de consciência, outras que são realizadas em grupo, que usam danças, músicas. Agora, imagine todos esses poderes juntos, convergindo e atuando sobre seu estilo de vida. Por isso a Biodanza consegue efeitos tão rápidos e profundos.

Não existe nenhuma magia e sim um modelo Teórico Científico, coerente, integrado e atualizado com as mais recentes descobertas da ciência. Agindo na expressão dos potenciais genéticos, e com toda essa gama de ecofatores, podemos até influir nas linhas de programação genética.

Posso testemunhar nesses 20 anos de Biodanza que é um sistema de cura muito poderoso.

Eliana Almeida – Diretora Escola de Biodanza Sistema Rolando Toro RioBarra.

Tel.: (21) 39822645 – http://www.biodanzario.com.br