CONVERSA SILENCIOSA – por Helio Arakaki

Quando eu tinha os meus cinco anos de idade, sofri um acidente. Numa peraltice junto com meus primos, fui atropelado. Tive uma fratura na perna que me deixou quase dois meses de gesso.

Naqueles dias, lembro-me que ficava lendo revistas em quadrinhos, sentado numa poltrona, enquanto minha mãe trabalhava.

A rotina era quebrada quando recebia a visita de amigos de meus pais. Como era costume japonês, eles levavam balas, biscoitos e até dinheiro. Guardava-os todos numa latinha de Toddy. E eu pedia para comprarem as revistas, os gibis.

Um dia, uma vizinha, ao me visitar, me presenteou com um pequeno quadro negro. Daquele dia em diante passei a desenhar. Era capaz de passar o dia todo em silêncio, criando personagens e desenhando estórias em quadrinho.

Talvez este período tenha determinado uma característica minha que, de certa forma, me trouxe uma certa dificuldade, pois tornei-me uma pessoa retraída, tímida. Ao invés de fazer muitos amigos, tive um convívio restrito de pessoas. E assim, aprendi a conviver mais ainda com o silêncio.

Ao longo dos anos, no exercício do ensino do Karate e da Biodanza, fui ampliando a minha capacidade de expressão e também os meus relacionamentos. Mas ainda hoje adoro ficar em silêncio.

E foi através do Karate que aprendi a conviver melhor com o silêncio. Tive um Mestre, Sr Juichi Sagara, uma pessoa refinada, educada a moda dos nobres japoneses. Sua característica era de ser uma pessoa silenciosa. Quando vinha à minha cidade, saíamos de carro, e ficávamos naturalmente em silêncio. Falava-se o necessário, não mais que o necessário. Com ele aprendi que estar com uma pessoa, necessariamente, não há de se ter a necessidade de ficar o tempo todo conversando.

O silêncio é mais revelador que as palavras, ele nos vincula profundamente, tal qual dois amantes que, silenciosamente, olhando um nos olhos do outro, ou de uma mãe que embala em seu colo o bebê que a olha, se compreendem e se fundem.

Através do silêncio é que realmente compreendemos o outro e nos harmonizamos. Principalmente, diante dos conflitos. É a tal historia: se um não quer, o outro não briga.

Infelizmente, o silêncio do outro que nos acompanha é interpretado como distanciamento, indiferença. O que não é verdade.

Deveríamos aprender a valorizar o silêncio, pois assim, quando o assunto se esgotasse, não passaríamos momentos de ansiedade, desejosos de nos despedir das pessoas que encontramos.

Compreenderíamos que não é por causa da distância e da falta de comunicação que uma amizade deixou de existir. Que os amigos não deixariam de ser amigos por causa do silêncio.

Conversar e silenciar, silenciar e conversar, deveria ser algo aceito como natural nos encontros. Pois aí ficaríamos mais tempo, de verdade, na presença das pessoas.

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